As mudanças climáticas deixaram de ser uma pauta ambiental distante e passaram a impactar diretamente a rotina de trabalho em diversos setores produtivos. O aumento da temperatura média global, a intensificação das ondas de calor e a maior frequência de eventos extremos colocam o estresse térmico no centro das discussões sobre Segurança e Saúde do Trabalho. Trata-se de um risco ocupacional crescente, que exige das empresas uma gestão cada vez mais técnica, preventiva e baseada em evidências.
Estudos recentes da Organização Internacional do Trabalho apontam que mais de dois terços da força de trabalho mundial estão expostos a riscos relacionados ao calor, especialmente em atividades a céu aberto, indústrias, construção civil, agricultura, logística e serviços essenciais. A exposição contínua a altas temperaturas compromete a capacidade do corpo humano de regular sua temperatura interna, desencadeando efeitos que vão muito além do desconforto físico.
O estresse térmico afeta diretamente o desempenho cognitivo e físico do trabalhador. A elevação da temperatura corporal pode causar desidratação, fadiga intensa, tontura, redução da capacidade de concentração e aumento do tempo de resposta a estímulos. Esses fatores elevam significativamente o risco de acidentes, falhas operacionais e erros críticos, especialmente em atividades que exigem atenção constante, precisão ou esforço físico elevado.
Dados internacionais indicam que a produtividade pode cair entre 10% e 30% em ambientes com calor excessivo, além do aumento expressivo nos afastamentos por adoecimentos relacionados ao calor. Em casos mais graves, o estresse térmico pode evoluir para exaustão térmica e insolação, condições que representam risco imediato à vida do trabalhador e expõem a empresa a sérias consequências legais e reputacionais.
Diante desse cenário, a gestão do risco térmico deve ser integrada de forma estruturada à SST. Isso começa pela avaliação contínua das condições ambientais, utilizando índices reconhecidos, medições térmicas e monitoramento das variáveis climáticas. A adaptação das jornadas de trabalho, a reorganização de tarefas para horários mais amenos e a implementação de pausas programadas são estratégias fundamentais.
O fornecimento de água em quantidade adequada, a orientação constante sobre hidratação e o uso de vestimentas apropriadas ao clima também são medidas essenciais. Tecnologias de monitoramento, como sensores ambientais e wearables capazes de identificar sinais precoces de estresse térmico, ganham espaço como aliadas importantes na prevenção.
Além das ações operacionais, o estresse térmico precisa ser incorporado formalmente às análises de risco, ao PGR e às políticas de SST da empresa, considerando cenários climáticos cada vez mais extremos. Proteger o trabalhador diante das mudanças climáticas não é apenas uma exigência legal, mas uma decisão estratégica que reflete responsabilidade social, sustentabilidade e cuidado genuíno com a vida.






